terça-feira, 17 de março de 2015

A impotência como marca humana


       A Maré tem como proposta dar algumas dicas literárias para os leitores do Vinte e Oito. Uma vez por semana, aqui no blog, postarei uma resenha ou alguma indicação de livros ou contos para enriquecer a estante de cada leitor! Hoje, a primeira indicação que trago é o maravilhoso e último livro do escritor já aposentado Philip Roth, “Nêmesis”. Como alguns de vocês já viram na descrição, curso Biomedicina pela Faculdade da Serra Gaúcha; então, nada melhor do que dar início aos trabalhos com um livro que retrata - de maneira absurdamente intensa - a epidemia de poliomielite nos Estados Unidos. 
      A história se passa no ano de 1944 em um bairro essencialmente judeu, em Newark, nos Estados Unidos. O protagonista é Eugene Cantor, um jovem de 23 anos que leciona Educação Física para crianças e adolescentes. Em plena Segunda Guerra Mundial, Senhor Cantor – como era chamado pelas crianças- se viu impotente, ao saber que não serviria nos confrontos, devido a sua miopia. Em uma vida marcada pela ausência dos pais e morte do avô, Eugene se encontra em duas rotinas: cuidados com a avó e as crianças. 
       Como fator determinante para o início das frustrações do personagem, um grupo aparece no colégio e cospe no chão, ameaçando a todos com uma doença terrível. Logo depois, vários alunos contraem poliomielite. Nos primeiros surtos da doença, não havia o conhecimento sobre as especificidades da patologia, como, por exemplo, a forma de contágio e muitas foram as teorias durante a narrativa. Aos poucos, crianças próximas de Cantor, ficam paralisadas e, logo após, morrem. Marcia, namorada do professor, convida-o para se afastar de sua cidade. Sentindo-se responsável pela morte dos jovens e culpado por deixar sua avó, Eugene se depara com três guerras: a que estava paralisando e matando seus alunos, a que estava aniquilando seus amigos em batalhas e a mais importante: a que o afligia em sua integridade mais básica, a de ser humano incapaz de controlar a morte.
      O título da obra já induz uma provocação no leitor. Heródoto atribuiu à “Nêmesis”, o sentido de vingança e castigo, que poderia ser facilmente relacionado com o papel de Eugene na narrativa. Seria esse o castigo por ter deixado suas crianças à mercê de uma “doença terrível”? E a indagação sobre o papel de Deus nos acontecimentos: “O que é que Ele estava tentando provar? Que precisamos ter aleijados na Terra?”, evidencia a tensão na qual esteve presente. 
      Cantor demonstra, de forma primorosa, a impotência dos homens quanto à única certeza da existência: a morte iminente. A mortalidade e impotência como objeto de reflexão deixa um tom provocativo que, como Roth afirmou, demonstrava o medo da população diante de um governo fascista – e a ideia deste. Uma comunidade ameaçada pela poliomielite e pela Guerra. Duas facetas de uma realidade assustadora, em que há coisas no universo que podem matar e aleijar – e não há nada que se possa fazer. Um livro com uma pitada autobiográfica e o encerramento brilhante da carreira de um escritor genial.
             



Encerrando o post de hoje, deixo com vocês um recorte sobre a morte para Espinosa: 

      “Quando você vê uma pessoa no velório, o que você vê ali é o que sobrou de um conjunto interminável de momentos em que o mundo entristeceu; uma trajetória ininterrupta de tristezas, concentradas e condensadas em um instante cadavérico. É a vitória definitiva do desencontro com o mundo, do desamor, da tristeza. A vitória definitiva de um mundo que muito mais lesionou do que alegrou. Vitória inexorável, necessária; triunfo estatístico do mal sobre o bem. Assimetria do mal e do bem. Porque, numa vida em que o orgasmo dura 5 segundos, e uma enxaqueca 5 horas, você deve imaginar que tipo de luta você está lutando: uma luta em que a chance de perder é de 100%. A assimetria entre o bem e o mal tem como placar final o cemitério. É a revelação de que a probabilidade de o mundo te entristecer e te apequenar a energia é infinitamente maior que a probabilidade de ele fazer o efeito inverso.”







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