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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Alberto Caeiro: preso em liberdade.

       Dando início à sequência de posts sobre um dos maiores poetas da Língua Portuguesa - Fernando Pessoa - o primeiro heterônimo do autor a ser comentado será Alberto Caeiro. (acesse o primeiro post aqui).



       Como já havia comentado, heterônimos não seguem a mesma linha que os pseudônimos. Tal criação é evolvida por uma biografia e personalidade única para cada "personagem". Alberto Caeiro, por sua vez, é um dos mais conhecidos de Pessoa. Nasce no dia 16 de abril de 1889 em Lisboa e, em 1915, morre tuberculoso. Seu último poema é editado no dia de sua morte.
                                                                     
"É talvez o último dia de minha vida. 
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de o gostar antes: mais nada."
                     
"Poemas inconjuntos" (Last poem), Alberto Caeiro
    
       Caeiro não se preocupava com a morte, pelo contrário, lidava com o assunto de maneira tranquila e despreocupada com as póstumas situações que o envolveria - ou não. No poema "Quando vier a primavera", é exaltada a indiferença com a sua passagem; entretanto, é nítida a relevância da natureza e da realidade sem misticismos.

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, "Poemas inconjuntos"

       Apesar da sua personalidade despreocupada, Caeiro se preocupava com o rumo de seus poemas, se alguém os leria em um futuro distante. Além disso, pode-se observar, claramente, as características marcantes de Caeiro ao longo dos poemas, tais como o ateísmo (em alguns estudos sobre Pessoa consta também a expressão "paganismo"). 


Há metafísica bastante em não pensar em nada

"O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!"

      Pessoa admirava esse heterônimo profundamente, adotando-o como referência de vida e pensamento. Através de Caeiro, Fernando Pessoa - diz-se - aprendeu que a filosofia não deveria ser algo a ser buscado e almejado, não obstante, deveria ser sentida com a alma. 

      Alberto Caeiro, o único heterônimo com olhos e cabelos claros, foi o poeta primitivo,  o poeta dos sentidos. Pode-se aprender muito com a obra que tal heterônimo deixou. A percepção, a ânsia do conhecimento do mundo  - pela observação e não pela reles crença - e o apego à realidade e ao presente certamente não deixarão o poeta esquecido em meio à "arte de ser muitos" de Fernando Pessoa.

Se eu morrer de novo

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva 

Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro, "Poemas inconjuntos"

PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011
PAIS, Amélia Pinto. Para compreender Fernando Pessoa. São Paulo: Companhia das Letras, 2012 
FILHO, José Paulo Cavalcanti. Fernando Pessoa - Uma Quase Autobiografia. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.


terça-feira, 14 de abril de 2015

O "inesperante" de Pedro Guerra


        Após o evento secreto que ocorreu nesse sábado (11), para o lançamento da obra “Precisava de Você” do escritor Pedro Guerra, entrevistamos o autor, que nos contou várias experiências literárias, sonhos e várias dicas sobre o novo livro. Pedro já conta com uma obra de sucesso no cenário caxiense, denominada “A Rainha Está Morta”. Agora, prepara-se para a chegada de seu mais recente trabalho, em junho, nas livrarias. Confere só a entrevista:


Conta pra gente, resumidamente, do que se trata o livro “Precisava de Você”.

       Precisava de Você se trata de um romance que não deu certo, e acredito que muitas pessoas já passaram por isso em suas vidas. Quem nos conta a história é Lola, que se utiliza de um caderno para relatar tudo o que viveu (e queria ter vivido) com Gabriel Vegas, o garoto mais desejado de Porto Tempestade. De um breve romance ao fim inesperado, Lola escreve a história e o que ela faz com o caderno é tão inesperado quanto o desfecho do livro.

De onde surgiu a ideia para a elaboração da trilha sonora “Metáfora”?

      Escrevi a música que seria a trilha sonora da história enquanto estava escrevendo o livro. Nisso, acabei trazendo a música pra dentro da trama e a envolvi - ela tinha a cara dos sentimentos da Lola. De uma demo mal gravada, eu e Rhaysa Santos (a intérprete da música) entramos em estúdio para gravar a música de modo profissional. E a surpresa é que não gravamos ela apenas em uma versão. Em breve, Metaphore chega por aí...



Como começou a sua relação com a literatura? Ela esteve sempre presente na sua vida?

        Sempre esteve no sentido do incentivo que partiu dos meus pais. Sempre tivemos bastante livros em casa e foi a minha mãe quem me comprou alguns exemplares quando eu surgi com esse sonho louco. Hoje, cultivo minha própria biblioteca. Na última contagem, tinha uns 500 livros. Não li todos, é claro, mas a maioria...

Tu percebeste alguma evolução - na tua escrita e maturidade - do primeiro livro para este?

       Muita! E eu sempre digo que isso é muito bacana. Ainda guardo textos e rabiscos antigos, assim como textos virtuais em blogs, e toda hora fico remexendo para fazer essa comparação. Acho fundamental - e até engraçado.

 Cite três autores favoritos.

       Difícil só três, porém não posso deixar de falar de Agatha Christie, que foi a minha primeira inspiração para tudo. Minha autora nacional favorita é Claudia Tajes, por seu humor irônico e sarcástico, o que eu amo. Gosto muito também de Harlan Coben e Stephen King. Ops, já foram 4...

Qual foi o livro que mais marcou sua vida?

       A Louca da Casa, a autobiografia de Rosa Montero. Ela é escritora e une ficção e não ficção em uma autobiografia, o que por si só já é demais. Foi um divisor de águas na minha carreira.

Se tu pudesses definir, com um neologismo, o teu estilo de escrita, qual seria?

       Vou falar duas. Eu já criei uma espécie de neologismo ao usar o slogan "ex-critor" em minha logomarca. Isso porque, de cara, as pessoas são atraídas pela brincadeira, e a minha intenção com isso é a de mostrar que não sou um escritor comum. Quem me conhece, sabe que eu gosto de ir um pouco além das páginas. Tem ex tanta coisa, por que não ex-critor?
       Mas, para definir o meu estilo de escrita em si, eu criaria... hm... inesperante. Uma junção de inesperado com inconstante. Isso porque sempre escrevo algo novo, não gosto de me repetir. E também porque sou muito inconstante: quando a ideia não vem, simplesmente não escrevo. E ir atrás dela é perseguir o nada. É preciso esperar que tudo venha até mim, naturalmente. Às vezes me questiono: sou escritor mesmo?! Porque parece que as frases, ideias, pensamentos, vêm tão prontos até mim, que eu apenas sou responsável por colocar isso no papel.

Quais são os sonhos, como escritor, que ainda não realizaste? 

        Meu sonho é sempre meu próximo livro. No momento, estou realizando o maior deles, que é o lançamento de Precisava de Você. Esse é um livro que está há 3 anos na minha cabeça e há 2 vem se desenvolvendo, então agora tem sido o momento de realmente lançar isso para o pessoal. Em breve, dou início a minha próxima escrita, e novamente preciso e pretendo me reinventar. A partir daí, esse será o meu próximo sonho.



        Gostou de saber um pouquinho mais sobre Pedro e quer ficar por dentro de todas as obras dele? Curte a página no Facebook!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Que livro te mordeu?

       Conheci a Renata por sorte. Na primeira vez que a vi, pensei "que pessoa diferente" e, de fato, que pessoa diferente é essa mulher! Nossos gostos literários logo se colidiram e, inclusive, permitiram-me convidar esse ser humano incrível pra escrever um post sobre o projeto - lindo!- que ela tem. Seguem aí as palavras de Renatinha:

     
     

       As pessoas vivem dizendo por aí: “Leia um livro!”

     Sabe quantos livros existem no mundo? Em 2010 a galerinha do Google estimou APENAS 129.864.880 (cento e vinte e nove milhões, oitocentos e sessenta e quatro mil, oitocentos e oitenta) Assim fica mais fácil de escolher um não? Não. Claro que não.
       Tu já entrou numa livraria ou biblioteca e pensou: “nem se eu passasse a vida inteira lendo, chegaria perto de terminar todos esses livros”? É um sentimento meio deprê, eu sei, mas não precisa ser, porque mais importante do que “ler um livro” é ler “O” livro.
      A gente lê pra encontrar histórias que nos ensinem, pra sentir alguma coisa diferente, pra que cause na gente aquele efeito “boooooh!!”, e que depois de tudo isso, inevitavelmente deixe uma marca. Esperamos que cada livro seja o melhor da vida e quando esse livro não chega nem minimamente perto de atingir essa expectativa, sentimos que perdemos tempo. E veja bem, de fato perdemos!
      Quando eu conheci a Larissa (dona dessa espaço que me foi brevemente concedido) eu logo fui com a cara dela. Ela segurava na mão “O conto da ilha desconhecida” do Saramago. Ela me falou desse livro com tanta propriedade, paixão, mistério e apego que me deu muita vontade de ler, não só pra descobrir o final (que ela se negou a me contar), mas porque queria ter a chance de sentir a mesma coisa. 


       No dia seguinte eu fui no Arco da velha (a livraria mais simpática de Caxias) e lá estava o livro da Larissa, olhando pra mim como se já fosse meu e por isso seria um baita insulto não levá-lo comigo. Li o livro em uma sentada. Era uma história curta, mas com uma metáfora poderosíssima, daquelas que te deixa pensativo durante dias. O conto da ilha desconhecida acabou parando na pilha de preferidos da prateleira. O livro que mordeu Larissa, me mordeu também.
      Isso, meus caros, não se configura como uma coincidência, uma artimanha do destino ou nada assim. Muito pelo contrário, é aí que mora o segredo: os melhores livros virão de recomendações incendiadas de amigos em relação aos seus respectivos livros preferidos. Se alguém diz: “Sério, esse é o melhor livro do mundo porque ele mudou o jeito que eu vejo a vida” não se pode fazer outra coisa além de ler a droga do livro!
       E digo mais, é a partir dos livros “life changing” que surgem as melhores conversas, as tatuagens, os filmes, as dedicatórias, os empréstimos… E assim como o amor (me perdoem aqui o pieguismo) eles precisam ser espalhados. Que bom que espaços como esse aqui existem, porque são eles que criam a faísca, que jogam a lenha na fogueira que incentivam essas conversas a crescer. Dizem o tempo todo (desde o século XIX) que os livros vão morrer, mas a literatura sempre encontrou um jeito. Porque assim como a Larissa ou você que lê esse texto, sempre haverá pessoas encantadas com as palavras.


Renata Siegmann criou a página “Que livro te mordeu?”. Um espaço para as pessoas dividirem com o mundo seus livros “life changing”. Acessa ele aqui!


3 livros que morderam a Renata:

“Elogio da loucura” de Erasmo Roterdã
“A História sem Fim” de Michael Ende
“Budapeste” de Chico Buarque.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O ESCRAVO CARDÍACO DAS ESTRELAS


Português. Gênio. Saudosista. Modernista.



       O maior criador de heterônimos da Literatura Mundial, Fernando António Nogueira Pessoa, é estudado ao redor do mundo, justamente pela riqueza de sua obra. Pessoa construiu uma nova perspectiva para o modernismo, em Portugal, lançando e concretizando um de seus heterônimos – Álvaro de Campos – na revista literária Orpheu. A genialidade da sua criação, para mim, consiste na criação de personalidades e biografias para cada um de seus heterônimos, transmitindo o desdobramento dos pensamentos e a essência do autor.


        Ao passo que a grandiosidade de sua produção literária é estudada na sua totalidade, tal criação estética – heteronímia- é, definitivamente, o grande legado de Pessoa. As linguagens individuais e respectivas visões de mundo enaltecem a genialidade com que foram criados e escritos.


”Umas figuras insiro em contos, ou em subtítulos de livros, e assino com o meu nome o que elas dizem; outras projeto em absoluto e não assino senão com o dizer que as fiz. Os tipos de figuras distinguem-se do seguinte modo: nas que destaco em absoluto, o mesmo estilo, me é alheio, e se afirma o que pede, contrário, até, ao meu; nas figuras que subscrevo não há diferença do meu estilo próprio, senão nos pormenores inevitáveis, sem os quais elas se não distinguiriam entre si.”
-
Fernando Pessoa no prefácio às “Ficções do Interlúdio”


        Dessa forma, cinco posts serão feitos com todo o amor do mundo para explicar os heterônimos mais famosos do autor: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares.  Confiram esse curta-metragem feito com esses heterônimos, “Dia Triunfal”:




Para instigar um pouco, deixo aqui um trechinho de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos.


“Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)”



Para quem quer comprar os livros que utilizei para a criação do primeiro post, pode encontrar aqui e aqui.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A Fome de Abraços

       Eduardo Hughes Galeano é um dos grandes gênios da literatura da América Latina. Um homem politicamente de esquerda, foi exilado na Argentina após o golpe militar no Uruguai em 1973, e na Espanha em 1976. “O livro dos abraços” traz a realidade da vida do autor. Quase um aglomerado de memórias, a obra retrata frases, diálogos, momentos e reflexões de Galeano sobre os mais diversos temas da vida, incluindo a forte crítica ao capitalismo e aos regimes totalitários que assombraram a população e o fizeram temer pela sua vida durante quase uma década.


        “A tevê dispara imagens que reproduzem o sistema e as vozes que lhe fazem eco; e não há canto do mundo que ela não alcance. O planeta inteiro é um vasto subúrbio de Dallas. Nós comemos emoções importadas como se fossem salsichas em lata, enquanto os jovens filhos da televisão, treinados para contemplar a vida em vez de fazê-la, sacodem os ombros.
       Na América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem.”

       O livro se divide em pequenas histórias, de uma ou duas páginas, contadas de maneira sutilmente poética, porém com pesadas reflexões. Com ilustrações do próprio Galeano, torna-se pessoal e, como o título menciona, a impressão de ser abraçado pela obra não é mera coincidência. A valorização de momentos e a resiliência do autor, remetem a época do exílio e de suas andanças e vivências pelos países da América Latina, inclusive pelo Brasil. Apesar de seu título delicado, vale ressaltar que a história são memórias do autor que, por sua vez, não teve uma vida totalmente harmoniosa. 



Os índios/2
A linguagem como traição: gritam carrascos para eles. No Equador, os carrascos chamam de carrascos as suas vítimas:
- Índios carrascos! gritam.
De cada três equatorianos, um é índio. Os outros dois cobram deles, todos os dias, a derrota histórica.
- Somos os vencidos. Ganharam a guerra. Nós perdemos por acreditar neles. Por isso - me diz Miguel, nascido no fundo da selva amazônica.
São tratados como os negros na África do Sul: os índios não podem entrar nos hotéis ou nos restaurantes.
- Na escola metiam a lenha em mim quando eu falava a nossa língua- me conta Lucho, nascido ao sul da serra.
- Meu pai me proibia de falar quechua. É pelo seu bem, me dizia - recorda Rosa, a mulher de Lucho.
Rosa e Lucho vivem em Quito. Estão acostumados a ouvir:
- Índio de merda.
Os índios são bobos, vagabundos, bêbados. Mas o sistema que os despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do desprezo, aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? O que dizem quando falam? O que dizem quando calam?”

       Dessa maneira, muitos são os relatos caliginosos; porém, sempre demonstram o inconformismo de Galeano. Entretanto, como já mencionado, existem trechos escritos de maneira linda e poética.


A pequena morte
        Não nos provoca o riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntarmo-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

        Concluindo, Galeano faz uma importante reflexão sobre a ausência de vínculos na sociedade, enfatizando o desmazelado governo. Entretanto, a fome de abraços, infelizmente, continua destruindo pessoas – em suas individualidades - e nações – na sua totalidade.      


A fome/2
        Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor..., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco da de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.”



GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. 2º edição, Porto Alegre. L&PM, 1989. Se interessou? O livro pode ser encontrado para compra na L&PM neste link.

terça-feira, 17 de março de 2015

A impotência como marca humana


       A Maré tem como proposta dar algumas dicas literárias para os leitores do Vinte e Oito. Uma vez por semana, aqui no blog, postarei uma resenha ou alguma indicação de livros ou contos para enriquecer a estante de cada leitor! Hoje, a primeira indicação que trago é o maravilhoso e último livro do escritor já aposentado Philip Roth, “Nêmesis”. Como alguns de vocês já viram na descrição, curso Biomedicina pela Faculdade da Serra Gaúcha; então, nada melhor do que dar início aos trabalhos com um livro que retrata - de maneira absurdamente intensa - a epidemia de poliomielite nos Estados Unidos. 
      A história se passa no ano de 1944 em um bairro essencialmente judeu, em Newark, nos Estados Unidos. O protagonista é Eugene Cantor, um jovem de 23 anos que leciona Educação Física para crianças e adolescentes. Em plena Segunda Guerra Mundial, Senhor Cantor – como era chamado pelas crianças- se viu impotente, ao saber que não serviria nos confrontos, devido a sua miopia. Em uma vida marcada pela ausência dos pais e morte do avô, Eugene se encontra em duas rotinas: cuidados com a avó e as crianças. 
       Como fator determinante para o início das frustrações do personagem, um grupo aparece no colégio e cospe no chão, ameaçando a todos com uma doença terrível. Logo depois, vários alunos contraem poliomielite. Nos primeiros surtos da doença, não havia o conhecimento sobre as especificidades da patologia, como, por exemplo, a forma de contágio e muitas foram as teorias durante a narrativa. Aos poucos, crianças próximas de Cantor, ficam paralisadas e, logo após, morrem. Marcia, namorada do professor, convida-o para se afastar de sua cidade. Sentindo-se responsável pela morte dos jovens e culpado por deixar sua avó, Eugene se depara com três guerras: a que estava paralisando e matando seus alunos, a que estava aniquilando seus amigos em batalhas e a mais importante: a que o afligia em sua integridade mais básica, a de ser humano incapaz de controlar a morte.
      O título da obra já induz uma provocação no leitor. Heródoto atribuiu à “Nêmesis”, o sentido de vingança e castigo, que poderia ser facilmente relacionado com o papel de Eugene na narrativa. Seria esse o castigo por ter deixado suas crianças à mercê de uma “doença terrível”? E a indagação sobre o papel de Deus nos acontecimentos: “O que é que Ele estava tentando provar? Que precisamos ter aleijados na Terra?”, evidencia a tensão na qual esteve presente. 
      Cantor demonstra, de forma primorosa, a impotência dos homens quanto à única certeza da existência: a morte iminente. A mortalidade e impotência como objeto de reflexão deixa um tom provocativo que, como Roth afirmou, demonstrava o medo da população diante de um governo fascista – e a ideia deste. Uma comunidade ameaçada pela poliomielite e pela Guerra. Duas facetas de uma realidade assustadora, em que há coisas no universo que podem matar e aleijar – e não há nada que se possa fazer. Um livro com uma pitada autobiográfica e o encerramento brilhante da carreira de um escritor genial.
             



Encerrando o post de hoje, deixo com vocês um recorte sobre a morte para Espinosa: 

      “Quando você vê uma pessoa no velório, o que você vê ali é o que sobrou de um conjunto interminável de momentos em que o mundo entristeceu; uma trajetória ininterrupta de tristezas, concentradas e condensadas em um instante cadavérico. É a vitória definitiva do desencontro com o mundo, do desamor, da tristeza. A vitória definitiva de um mundo que muito mais lesionou do que alegrou. Vitória inexorável, necessária; triunfo estatístico do mal sobre o bem. Assimetria do mal e do bem. Porque, numa vida em que o orgasmo dura 5 segundos, e uma enxaqueca 5 horas, você deve imaginar que tipo de luta você está lutando: uma luta em que a chance de perder é de 100%. A assimetria entre o bem e o mal tem como placar final o cemitério. É a revelação de que a probabilidade de o mundo te entristecer e te apequenar a energia é infinitamente maior que a probabilidade de ele fazer o efeito inverso.”





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Raio-X: Maré Literária

     Você já ouviu falar sobre o projeto "Maré Literária?". As estudantes caxienses Larissa Subtil e Maria Luisa Loreto pesquisaram e puderam observar a atual situação, muitas vezes precária, de algumas escolas e abrigos em relação à leitura. Percebendo a gravidade do problema, resolveram tomar uma atitude básica: coleta de livros para distribuição.


      "O obstáculo não é a ânsia pelos livros e sim, a falta destes. Sagas literárias, por exemplo, são leituras fáceis e que, muitas vezes, dão início ao hábito." enfatiza Larissa. Analisando isso,  começaram com a arrecadação de livros para que, crianças, adolescentes - e também adultos - possam cultivar a paixão pela leitura e pelo conhecimento.


     Larissa cita Manoel de Barros como fonte de inspiração. "Uma criança que tem em mãos a literatura, pode fazer pedra dar flor". As duas jovens acreditam no poder da leitura como válvula propulsora para uma sociedade mais justa e conhecedora de seu mundo. E aí, está afim de doar algum livro e ajudar com a campanha ou simplesmente conseguir algo legal pra ler? Entra em contato com elas pelo número 054 96920707 ou pela page do projeto Maré Literária , onde é possível descobrir os pontos de coleta dos books.


     Como o pessoal do blog é bastante curioso e está sempre buscando indicações legais pra trazer pra vocês, pedimos pra Lari indicar 4 dos livros preferidos dela, e as sugestões foram: O Conto da Ilha Desconhecida - José Saramago, Poesia Completa - Manoel de Barros, O Macaco e a Essência - Aldous Huxley e por último Ressurreição - L. Tolstói. Não deixem de compartilhar e comentar se já leram algum, viu.