A Fome de Abraços
Eduardo Hughes Galeano é um dos grandes gênios da literatura da América Latina. Um homem politicamente de esquerda, foi exilado na Argentina após o golpe militar no Uruguai em 1973, e na Espanha em 1976. “O livro dos abraços” traz a realidade da vida do autor. Quase um aglomerado de memórias, a obra retrata frases, diálogos, momentos e reflexões de Galeano sobre os mais diversos temas da vida, incluindo a forte crítica ao capitalismo e aos regimes totalitários que assombraram a população e o fizeram temer pela sua vida durante quase uma década.
“A tevê dispara imagens que reproduzem o sistema e as vozes que lhe fazem eco; e não há canto do mundo que ela não alcance. O planeta inteiro é um vasto subúrbio de Dallas. Nós comemos emoções importadas como se fossem salsichas em lata, enquanto os jovens filhos da televisão, treinados para contemplar a vida em vez de fazê-la, sacodem os ombros.
Na América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem.”
O livro se divide em pequenas histórias, de uma ou duas páginas, contadas de maneira sutilmente poética, porém com pesadas reflexões. Com ilustrações do próprio Galeano, torna-se pessoal e, como o título menciona, a impressão de ser abraçado pela obra não é mera coincidência. A valorização de momentos e a resiliência do autor, remetem a época do exílio e de suas andanças e vivências pelos países da América Latina, inclusive pelo Brasil. Apesar de seu título delicado, vale ressaltar que a história são memórias do autor que, por sua vez, não teve uma vida totalmente harmoniosa.
“Os índios/2
A linguagem como traição: gritam carrascos para eles. No Equador, os carrascos chamam de carrascos as suas vítimas:
- Índios carrascos! gritam.
De cada três equatorianos, um é índio. Os outros dois cobram deles, todos os dias, a derrota histórica.
- Somos os vencidos. Ganharam a guerra. Nós perdemos por acreditar neles. Por isso - me diz Miguel, nascido no fundo da selva amazônica.
São tratados como os negros na África do Sul: os índios não podem entrar nos hotéis ou nos restaurantes.
- Na escola metiam a lenha em mim quando eu falava a nossa língua- me conta Lucho, nascido ao sul da serra.
- Meu pai me proibia de falar quechua. É pelo seu bem, me dizia - recorda Rosa, a mulher de Lucho.
Rosa e Lucho vivem em Quito. Estão acostumados a ouvir:
- Índio de merda.
Os índios são bobos, vagabundos, bêbados. Mas o sistema que os despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do desprezo, aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? O que dizem quando falam? O que dizem quando calam?”
Dessa maneira, muitos são os relatos caliginosos; porém, sempre demonstram o inconformismo de Galeano. Entretanto, como já mencionado, existem trechos escritos de maneira linda e poética.
Não nos provoca o riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntarmo-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”
Concluindo, Galeano faz uma importante reflexão sobre a ausência de vínculos na sociedade, enfatizando o desmazelado governo. Entretanto, a fome de abraços, infelizmente, continua destruindo pessoas – em suas individualidades - e nações – na sua totalidade.
“A fome/2
Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor..., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco da de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.”


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