Alberto Caeiro: preso em liberdade.
Dando início à sequência de posts sobre um dos maiores poetas da Língua Portuguesa - Fernando Pessoa - o primeiro heterônimo do autor a ser comentado será Alberto Caeiro. (acesse o primeiro post aqui).
Como já havia comentado, heterônimos não seguem a mesma linha que os pseudônimos. Tal criação é evolvida por uma biografia e personalidade única para cada "personagem". Alberto Caeiro, por sua vez, é um dos mais conhecidos de Pessoa. Nasce no dia 16 de abril de 1889 em Lisboa e, em 1915, morre tuberculoso. Seu último poema é editado no dia de sua morte.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de o gostar antes: mais nada."
"Poemas inconjuntos" (Last poem), Alberto Caeiro
Caeiro não se preocupava com a morte, pelo contrário, lidava com o assunto de maneira tranquila e despreocupada com as póstumas situações que o envolveria - ou não. No poema "Quando vier a primavera", é exaltada a indiferença com a sua passagem; entretanto, é nítida a relevância da natureza e da realidade sem misticismos.
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, "Poemas inconjuntos"
Apesar da sua personalidade despreocupada, Caeiro se preocupava com o rumo de seus poemas, se alguém os leria em um futuro distante. Além disso, pode-se observar, claramente, as características marcantes de Caeiro ao longo dos poemas, tais como o ateísmo (em alguns estudos sobre Pessoa consta também a expressão "paganismo").
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!"
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!"
Pessoa admirava esse heterônimo profundamente, adotando-o como referência de vida e pensamento. Através de Caeiro, Fernando Pessoa - diz-se - aprendeu que a filosofia não deveria ser algo a ser buscado e almejado, não obstante, deveria ser sentida com a alma.
Alberto Caeiro, o único heterônimo com olhos e cabelos claros, foi o poeta primitivo, o poeta dos sentidos. Pode-se aprender muito com a obra que tal heterônimo deixou. A percepção, a ânsia do conhecimento do mundo - pela observação e não pela reles crença - e o apego à realidade e ao presente certamente não deixarão o poeta esquecido em meio à "arte de ser muitos" de Fernando Pessoa.
Se eu morrer de novo
Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
Alberto Caeiro, "Poemas inconjuntos"
PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011
PAIS, Amélia Pinto. Para compreender Fernando Pessoa. São Paulo: Companhia das Letras, 2012
FILHO, José Paulo Cavalcanti. Fernando Pessoa - Uma Quase Autobiografia. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.





Larissa, tu está cada vez mais de parabéns!
ResponderExcluirObrigada, Guilha <3
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