Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Alberto Caeiro: preso em liberdade.

       Dando início à sequência de posts sobre um dos maiores poetas da Língua Portuguesa - Fernando Pessoa - o primeiro heterônimo do autor a ser comentado será Alberto Caeiro. (acesse o primeiro post aqui).



       Como já havia comentado, heterônimos não seguem a mesma linha que os pseudônimos. Tal criação é evolvida por uma biografia e personalidade única para cada "personagem". Alberto Caeiro, por sua vez, é um dos mais conhecidos de Pessoa. Nasce no dia 16 de abril de 1889 em Lisboa e, em 1915, morre tuberculoso. Seu último poema é editado no dia de sua morte.
                                                                     
"É talvez o último dia de minha vida. 
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de o gostar antes: mais nada."
                     
"Poemas inconjuntos" (Last poem), Alberto Caeiro
    
       Caeiro não se preocupava com a morte, pelo contrário, lidava com o assunto de maneira tranquila e despreocupada com as póstumas situações que o envolveria - ou não. No poema "Quando vier a primavera", é exaltada a indiferença com a sua passagem; entretanto, é nítida a relevância da natureza e da realidade sem misticismos.

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, "Poemas inconjuntos"

       Apesar da sua personalidade despreocupada, Caeiro se preocupava com o rumo de seus poemas, se alguém os leria em um futuro distante. Além disso, pode-se observar, claramente, as características marcantes de Caeiro ao longo dos poemas, tais como o ateísmo (em alguns estudos sobre Pessoa consta também a expressão "paganismo"). 


Há metafísica bastante em não pensar em nada

"O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!"

      Pessoa admirava esse heterônimo profundamente, adotando-o como referência de vida e pensamento. Através de Caeiro, Fernando Pessoa - diz-se - aprendeu que a filosofia não deveria ser algo a ser buscado e almejado, não obstante, deveria ser sentida com a alma. 

      Alberto Caeiro, o único heterônimo com olhos e cabelos claros, foi o poeta primitivo,  o poeta dos sentidos. Pode-se aprender muito com a obra que tal heterônimo deixou. A percepção, a ânsia do conhecimento do mundo  - pela observação e não pela reles crença - e o apego à realidade e ao presente certamente não deixarão o poeta esquecido em meio à "arte de ser muitos" de Fernando Pessoa.

Se eu morrer de novo

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva 

Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro, "Poemas inconjuntos"

PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011
PAIS, Amélia Pinto. Para compreender Fernando Pessoa. São Paulo: Companhia das Letras, 2012 
FILHO, José Paulo Cavalcanti. Fernando Pessoa - Uma Quase Autobiografia. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O ESCRAVO CARDÍACO DAS ESTRELAS


Português. Gênio. Saudosista. Modernista.



       O maior criador de heterônimos da Literatura Mundial, Fernando António Nogueira Pessoa, é estudado ao redor do mundo, justamente pela riqueza de sua obra. Pessoa construiu uma nova perspectiva para o modernismo, em Portugal, lançando e concretizando um de seus heterônimos – Álvaro de Campos – na revista literária Orpheu. A genialidade da sua criação, para mim, consiste na criação de personalidades e biografias para cada um de seus heterônimos, transmitindo o desdobramento dos pensamentos e a essência do autor.


        Ao passo que a grandiosidade de sua produção literária é estudada na sua totalidade, tal criação estética – heteronímia- é, definitivamente, o grande legado de Pessoa. As linguagens individuais e respectivas visões de mundo enaltecem a genialidade com que foram criados e escritos.


”Umas figuras insiro em contos, ou em subtítulos de livros, e assino com o meu nome o que elas dizem; outras projeto em absoluto e não assino senão com o dizer que as fiz. Os tipos de figuras distinguem-se do seguinte modo: nas que destaco em absoluto, o mesmo estilo, me é alheio, e se afirma o que pede, contrário, até, ao meu; nas figuras que subscrevo não há diferença do meu estilo próprio, senão nos pormenores inevitáveis, sem os quais elas se não distinguiriam entre si.”
-
Fernando Pessoa no prefácio às “Ficções do Interlúdio”


        Dessa forma, cinco posts serão feitos com todo o amor do mundo para explicar os heterônimos mais famosos do autor: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares.  Confiram esse curta-metragem feito com esses heterônimos, “Dia Triunfal”:




Para instigar um pouco, deixo aqui um trechinho de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos.


“Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)”



Para quem quer comprar os livros que utilizei para a criação do primeiro post, pode encontrar aqui e aqui.