sexta-feira, 3 de abril de 2015

O ESCRAVO CARDÍACO DAS ESTRELAS


Português. Gênio. Saudosista. Modernista.



       O maior criador de heterônimos da Literatura Mundial, Fernando António Nogueira Pessoa, é estudado ao redor do mundo, justamente pela riqueza de sua obra. Pessoa construiu uma nova perspectiva para o modernismo, em Portugal, lançando e concretizando um de seus heterônimos – Álvaro de Campos – na revista literária Orpheu. A genialidade da sua criação, para mim, consiste na criação de personalidades e biografias para cada um de seus heterônimos, transmitindo o desdobramento dos pensamentos e a essência do autor.


        Ao passo que a grandiosidade de sua produção literária é estudada na sua totalidade, tal criação estética – heteronímia- é, definitivamente, o grande legado de Pessoa. As linguagens individuais e respectivas visões de mundo enaltecem a genialidade com que foram criados e escritos.


”Umas figuras insiro em contos, ou em subtítulos de livros, e assino com o meu nome o que elas dizem; outras projeto em absoluto e não assino senão com o dizer que as fiz. Os tipos de figuras distinguem-se do seguinte modo: nas que destaco em absoluto, o mesmo estilo, me é alheio, e se afirma o que pede, contrário, até, ao meu; nas figuras que subscrevo não há diferença do meu estilo próprio, senão nos pormenores inevitáveis, sem os quais elas se não distinguiriam entre si.”
-
Fernando Pessoa no prefácio às “Ficções do Interlúdio”


        Dessa forma, cinco posts serão feitos com todo o amor do mundo para explicar os heterônimos mais famosos do autor: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares.  Confiram esse curta-metragem feito com esses heterônimos, “Dia Triunfal”:




Para instigar um pouco, deixo aqui um trechinho de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos.


“Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)”



Para quem quer comprar os livros que utilizei para a criação do primeiro post, pode encontrar aqui e aqui.


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