O ESCRAVO CARDÍACO DAS ESTRELAS
Português. Gênio. Saudosista. Modernista.
O maior criador de heterônimos da Literatura Mundial, Fernando António Nogueira Pessoa, é estudado ao redor do mundo, justamente pela riqueza de sua obra. Pessoa construiu uma nova perspectiva para o modernismo, em Portugal, lançando e concretizando um de seus heterônimos – Álvaro de Campos – na revista literária Orpheu. A genialidade da sua criação, para mim, consiste na criação de personalidades e biografias para cada um de seus heterônimos, transmitindo o desdobramento dos pensamentos e a essência do autor.
Ao passo que a grandiosidade de
sua produção literária é estudada na sua totalidade, tal criação estética –
heteronímia- é, definitivamente, o grande legado de Pessoa. As linguagens
individuais e respectivas visões de mundo enaltecem a genialidade com que foram
criados e escritos.
”Umas figuras insiro em contos, ou em
subtítulos de livros, e assino com o meu nome o que elas dizem; outras projeto
em absoluto e não assino senão com o dizer que as fiz. Os tipos de figuras
distinguem-se do seguinte modo: nas que destaco em absoluto, o mesmo estilo, me
é alheio, e se afirma o que pede, contrário, até, ao meu; nas figuras que subscrevo
não há diferença do meu estilo próprio, senão nos pormenores inevitáveis, sem
os quais elas se não distinguiriam entre si.”
-
Fernando Pessoa
no prefácio às “Ficções do Interlúdio”
Dessa forma, cinco posts serão feitos
com todo o amor do mundo para explicar os heterônimos mais famosos do autor: Álvaro
de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Confiram esse curta-metragem feito com esses
heterônimos, “Dia Triunfal”:
Para instigar um pouco, deixo
aqui um trechinho de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos.
“Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a
cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento
que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou
tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes
de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra
inteira,
Mais o sistema solar e a Via
Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica
no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não
ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a
mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel
de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como
tenho deitado a vida.)”





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